Chamada Publicação: Dossiê: Idade Média: Idade "Mediada", Idade "Multimédia”

CHAMADA DE SUBMISSÃO PARA DOSSIÊ TEMÁTICO 2023.1


Idade média: idade "mediada", idade "multimédia

 

Proponentes:

Antonio Huertas Morales (URJC)

Raquel Crespo-Vila (Usal-URJC)


Dossiê de apresentação

(PT)

 

Uma Idade Média como "forma e pretexto"; uma Idade Média irónica e nostálgica; uma Idade Média escura, cruel e dura; uma Idade Média do século XIX, em ruínas e fantasmagórica; outra Idade Média, também do século XIX, mas já não envolta em trevas góticas, mas cheia de heróis, os primeiros de uma nação. Também uma Idade Média dogmática, de verdades e valores universais; uma Idade Média anti-moderna, localista e sustentável. Não esquecendo, claro está, aquela Idade Média em pânico, aterrorizada face a uma data redonda.. Até dez formas diferentes de "sonhar" a Idade Média distinguiu Umberto Eco (1988) num ensaio que já é programático.

De facto, há tantas "idades médias" como épocas encorajadas a rever e revisitar um período que   –e voltando mais uma vez ao que o semiólogo italiano assinalou– é impossível "museificar", pois é aí que reside a origem de muitas das questões que ainda hoje nos ocupam (passim Eco, 1988: 90-93). Não foi em vão que Miguel Ángel Ladero Quesada (2000: 76-80) observou que uma grande parte dos fundamentos socioculturais que ainda hoje operam no continente europeu –repare-se nesta contextualização– germinou na época medieval e, pela mesma razão, Friedrich Heer afirmou: “todo el que se enfrente a (…) los temores y esperanzas de nuestra época, se ocupa, lo sepa o no, de procesos cuyos comienzos y fuentes se encuentran directa o indirectamente en la Alta Edad Media” (1963: 17).

Deste modo, o quadro dos séculos medievais que se desenha no imaginário colectivo é, por sua vez, o resultado dos diferentes tratamentos que este período recebeu ao longo da história e da "cambiante relación con el pasado de los diferentes movimientos que establecieron una recreación imaginaria del Medievo” (Sanmartín Bastida, 2004: 234); um quadro multiforme no qual seria possível reconhecer, em qualquer caso, as ligações sublinhadas impostas, respectivamente, pelo olhar do humanismo renascentista, mais tarde ponderado pelo Iluminismo, e pelo espírito romântico do século XIX (Valdeón Baruque, 2003: 314, entre outros). De facto, é a partir destas ligações que, em grande medida, é possível compreender como e porquê a Idade Média se nos apresenta como uma espécie de "premissa", um "outro" lugar, às vezes negativo, às vezes positivo; às vezes um abrigo de barbaridades, às vezes a morada de ídolos e seres maravilhosos (Sergi, 2001: 22-23).

Tal polimorfismo poderia estar relacionado, em primeiro lugar, com o significado particular do rótulo "Idade Média" —o qual, como se verá mais adiante, também reverterá no nome da disciplina que tem por objeto este período (Sanmartín Bastida, 2004: 231; Gonçalves Soares & Sanmartín Bastida, 2021: 490). Note-se, por um lado, a cobertura hipertrofiada de um rótulo cuja origem pode ser rastreada até aos séculos XIV e XV, segundo especialistas –que, por sua vez, mencionam frequentemente os nomes conterrâneos de Flavio Biondo (1392-1463), historiador italiano, e de Giovanni Andrea dei Bussi (1417-1475), sacerdote e bibliotecário (por exemplo, em Le Goff, 1985: 7; Valdeón Baruque, 2003: 311)–, e que, acima de tudo, se refere a um período de tempo algo "excêntrico", devido não só à relação dialética entre "o medieval" e "o moderno" (Carpegna Falconieri, 2015: 17-18; Crespo-Vila, 2017: 553-554), mas também pela sua situação dentro da Academia (Patterson, 1990). Alem disso, note-se, por outo lado, que tal periodo de tempo está situado, como uma espécie de fenda, entre a Antiguidade e a Modernidade e, embora com margens ainda disputadas (ver Sergi, 2001: 27-30; Sanmartín Bastida, 2004), convencionalmente formado por um conjunto de mil anos, "tomado en bloque, sin discriminación ni matices " (Jacques Heers, 1995: 18-38).

Será, porventura, a mesma "Idade Média" aquela que tentam reconstruir os historiadores do século VI e a que diz respeito aos séculos XIV e XV? De um ponto de vista cultural e religioso, será apropriado ter uma visão monolítica destes mil anos? (Sergi, 2001: 91). E perguntemo-nos também, desde uma perspetiva socioeconómica e servindo-nos de Alain Guerreau, se os adjetivos "medieval" e "feudal", que parecem funcionar indissoluvelmente na imagem comum daqueles séculos, “¿pueden emplearse indistintamente o remiten a realidades distintas?, ¿podríamos aplicar al primero un sentido restringido y al último un sentido amplio, sentidos que, no obstante, no deberían ser confundidos?” (Guerreau, 2003: 297). Sem esquecer, evidentemente, outro critério fundamental: o geográfico, uma vez que também não parece apropriado transferir ou aplicar tal noção a outros territórios fora da Europa; o que não implica, em caso algum, que não não acabara projetando seu alcance milenar e poliforme para além do continente. Como Nadia Altschul salientou no que diz respeito à América Latina em particular: “mesmo sem termos vivido o período histórico chamado de medieval, ele foi apropriado em um discurso que contribuiu para fundar nosso mito de origem (...). Na América Latina, a idade média, como um conceito temporalizado, transformou-se na mãe zelosa ou na madrasta má dos nascentes Estados, muitas vezes, desempenhou ambos os papéis, ora exaltada, ora rejeitada” (Altschul, 2021: 10-11).

Assim, uma vez que a "Idade Média" não remete a um referente único, homogéneo e, muito menos, estancado na sua consideração ao longo do tempo –é antes "un conjunto de representaciones y de imágenes en perpetuo movimiento ampliamente difundido por la sociedad de generación en generación" (Amalvi, 2003: 232)–, a questão terminológica derivou, como já mencionámos, para o rótulo dos estudos que com ela lidam. Já nos anos 70, Leslie Workman propôs o rótulo "medievalismo" a fim de levantar perante a academia a necessidade de assumir a natureza complexa da Idade Média, de reconhecê-la como uma "construção" ou "processo" e de alargar a sua abordagem, por conseguinte, para além do arco cronológico a que está normalmente circunscrito (ver Workman, 1979, 1987, 1997). Por outras palavras, a proposta de Workman postulava que, a par dos acontecimentos da Idade Média, a academia deveria também considerar o estudo de toda a produção de sentido que surgiu a propósito dos séculos medievais em épocas sucessivas.

Embora a trajetória do debate aberto por Workman merecesse um trabalho separado –como o recentemente realizado em pormenor por Ana Rita Gonçalves Soares e Rebeca Sanmartín Bastida (2021: 484-492), que aqui seguimos– e a demarcação terminológica seja de facto muito mais árdua, é do nosso interesse tentar elaborar uma síntese e distinguir entre "estudos medievais", entendidos como o estudo científico da Idade Média –essa Idade Média convenientemente "unívoca"–, e o "medievalismo", como a “inspiración en el Medievo de las formas del arte y del pensamiento” (Sanmartín Bastida, 2004: 230) e o estudo, por sua vez, deste conjunto de "Idades Médias" recriadas, "codificadas" e mediadas pela subsequente receção. E sem esquecer, finalmente, o "novo medievalismo", como uma suposta renovação da disciplina sob a impressão e postulados do chamado "pós-modernismo" –mas talvez ainda mais complexo e debatido na sua definição, objeto e intuitos (Aurell, 2006: 809-832).

É, portanto, na órbita do medievalismo (que na esfera ibérica não parece ter cultivado uma tradição tão bem-sucedida como na esfera anglo-saxónica) que colocamos o presente dossier, com a intenção de assistir, juntamente com os autores que nos acompanham aqui, ao que deve ser considerado um novo marco na longa viagem da Idade Média após a Idade Média; marco cujos inícios podem ser traçados, contudo, até à segunda metade do século XX. Como Christian Amalvi salientou (em relação ao caso francês, mas igualmente aplicável a outros contextos), já em 1999: “desde hace unos veinte años aproximadamente, nuestra relación con el pasado medieval ha cambiado tan profundamente que se ha llegado a comparar esta vuelta a la Edad Media con el regreso propugnado por la generación de 1830” (2003: 237). Uma "outra" Idade Média a acrescentar, então, à lista profusa de idades médias identificadas por Umberto Eco e que, desde então, tem sido codificada –sucessivamente, cremos– de acordo com três parâmetros essenciais e intimamente relacionados. Sem o espaço aqui para entrar em questões de tal profundidade, uma breve apresentação desta tríade será suficiente:

(a)    A chamada "cultura de massas", cuja definição ainda hoje parece complexa, mas que é reconhecida como originária das exigências de uma classe trabalhadora que, durante a primeira metade do século XX, com os intensos processos de industrialização e urbanização vividos na Europa Ocidental e América do Norte, começou a exigir um tipo de cultura adequada aos seus gostos e interesses, mais próxima do lazer e do entretenimento. Uma cultura ligada, portanto, ao sistema capitalista, pautada pelo desenvolvimento dos meios de comunicação social e convertida num objeto de consumo (Abruzzense, 2004: 189-192; Eco, 2004, entre outros).

(b)    O já referido pensamento pós-moderno e os pressupostos do pós-modernismo, o primeiro entendido como uma forma de conceber o mundo marcado, grosso modo, pelo questionamento de uma série de categorias essenciais (sujeito, língua, realidade, verdade ou história) herdadas do pensamento iluminista; e a segunda, como a concretização estética da primeira e caracterizada, em síntese, pelo enfraquecimento dos fundamentos artísticos da modernidade –como o da originalidade–, a assunção de um contexto mercantilizado, a hibridização de materiais de origens diversas, bem como a reescrita, e mesmo até a paródia do passado artístico e histórico (ver, em particular, Lyotard, 1984; Jameson, 2016; Calinescu, 2003).

(c)    Em terceiro lugar, a evolução das novas tecnologias da informação e comunicação e a transformação digital progressiva, com repercussões claras não só no campo da cultura, mas também na sociedade em geral.  

É, assim, no entrelaçamento destes três acontecimentos que se encontram dois dos fenómenos mais importantes da história cultural recente, que, por sua vez, tiveram efeitos óbvios sobre o objeto que aqui nos ocupa; ou seja, sobre a forma e formatos da representação atual do passado medieval, a imagem do período e a sua instrumentalização numa perspetiva simbólica. Voltamos novamente a Christian Amalvi para introduzir o primeiro destes fenómenos:

Hace más de ciento cincuenta años, el redescubrimiento de este lejano “planeta” que es la Edad Media, no interesaba más que a la elite cultivada y adinerada de la sociedad francesa. Actualmente, es prácticamente al conjunto de la población a quien se dirige, si no la renovación de los estudios medievales, al menos el gran regreso de la Edad Media bajo la doble forma de turismo cultural y de pseudo-fiesta “medievalizante” recreada, una moda que desde hace quince años se ha extendido como la pólvora (…). (Amalvi, [1999] 2003: 240)

Falamos, evidentemente, da democratização da cultura –a "banalização" ou "mercantilização" para aqueles "apocalípticos" de quem Eco falou (2004: 30)– e da dissolução progressiva da linha que tradicionalmente separou a alta cultura da cultura popular; como efeito imediato da indústria cultural e da cultura de massas, através da qual o fluxo unidireccional de produção e disseminação da cultura seria subvertido para dar origem a um panorama muito mais fluido, híbrido e com transferências em movimento ascendente (Abruzzese, 2004: 190). Este fenómeno é também reconhecido como um dos mais significativos na estética pós-modernista, fascinada por: “este paisaje «degradado», chapucero y Kitsch, de las series televisivas y la cultura de Reader’s Digest, de la publicidad y los moteles, del cine de Hollywood de serie-B y de la llamada «paraliteratura»” (Jameson, 2016: 25). Deste jeito, e retomando uma fórmula de John Barth –pronunciada por ocasião da literatura pós-moderna (1986: 18)– poder-se-ia dizer, então, que a Idade Média sonhada hoje pode ter tanto de altar como de feira.

Do mesmo modo, num contexto cultural em que, consequentemente, línguas, formatos e motivos que até então tinham sido considerados "menores" passaram a ser revalorizados –deslocando-se das margens para o centro de produção, da periferia para o coração da Academia–, o segundo daqueles fenómenos é revelado: uma expressão cultural caracterizada pelo ecletismo, a heterogeneidade e a multiplicidade. Assim, longe de se restringir a um campo criativo específico, a "pseudo-festa medievalizante" de que Amalvi falou tem hoje um carácter transversal e abrangente e que a presença de motivos relacionados com o passado medieval (sejam eles argumentativos, formais, estruturais, simbólicos ou estéticos) pode ser igualmente notada na narrativa atual –também na dirigida aos jovens–, nas artes performativas, no grande ecrã, em séries televisivas (incluindo as das plataformas de vídeo a pedido), na música, na banda desenhada e romances gráficos, em videojogos e aplicações, nas artes plásticas..., assim como noutros tipos de iniciativas que, entre o lúdico, o informativo e o comercial, encontram na recriação da Idade Média um pretexto afortunado.

É por esta razão que, com certo laxismo terminológico –somos conscientes disso– propomos o adjetivo "multimédia" para descrever esta "outra" Idade Média atual. Embora compreendamos que este adjetivo, importado do inglês e ligado ao mundo da informação e comunicação digital, se refere no seu significado mais comum à produção de mensagens e/ou conteúdos integrados por vários códigos de significado (texto, imagens, som, dados), seguimos uma nota de Ramón Salaverría e apelamos aqui à etimologia latina do termo e, com ela, ao seu significado nuclear: “aquello que se expresa, transmite o percibe a través de varios medios” o –sublinhamos– “intermediarios” (Salaverría, 2001: 384). É precisamente esta codificação múltipla da Idade Média, através de diferentes formatos e simultaneamente no tempo, que estamos interessados em desvendar, junto com os autores, neste dossier: o conjunto de realizações medievais atuais será que dá uma imagem orgânica da Idade Média? Ou, pelo contrário, será que a especificidade de cada linguagem condiciona a imagem do passado medieval? O romancista que revisita a Idade Média usa os mesmos motivos que o ilustrador? E o compositor? E o programador? Como é que o modo de receção —consumo— de cada meio influencia a representação da Idade Média? Em resumo: com quantas Idades Médias sonha a cultura atual?

Tendo aceite a Idade Média como uma "era mediada", ou seja, como resultado de um processo de construção diacrónica e cumulativa, não se trata apenas de nos perguntarmos se estamos a assistir a uma nova fase deste processo, uma vez que, à luz do acima exposto, da bibliografia consultada e de um simples olhar sobre a situação cultural atual, isto pode parecer óbvio. Mas também, num contexto de produção cultural caracterizado pela multiplicidade, a diversidade e a "heteroglossia" (Pozuelo Yvancos, 2004: 47), vale a pena descobrir se, dentro desta fase de imitação medieval, diferentes tendências e sinergias estão a operar simultaneamente, sejam elas complementares ou contraditórias, mas que, numa perspetiva holística, reconfiguram uma nova imagem do período medieval. Assim, seguindo o conselho dos especialistas –que recomendam uma abordagem interdisciplinar da expressão do medieval (Workman, 1997: 30; Sanmartín Bastida, 2004: 230; Aurell: 2006: 811)–, reunimos neste dossier uma série de trabalhos que, de diferentes disciplinas e de diferentes perspetivas (teóricas, metodológicas, temáticas, geográficas), para além de dar conta da notável presença de motivos medievais na cultura actual, revelam o carácter "multimédia" desta renovada celebração da Idade Média, bem como a presumível impressão contextual deste festival e os vínculos específicos impostos por cada meio- anfitrião.

Todos os leitores são, portanto, convidados para esta festa: qual Idade Média gostariam de "sonhar"?

 

Os Editores

 Edad Media: Edad “Mediada”, Edad “Multimedia”

Presentación Dosier

(ES)

 

Una Edad Media como “manera y pretexto”; una Edad Media irónica y nostálgica; una Edad Media oscura, cruel y descarnada; una Edad Media decimonónica, ruinosa y fantasmagórica; otra Edad Media, también decimonónica, pero ya no envuelta en nieblas góticas, sino repleta de héroes, los primeros de una nación. También una Edad Media dogmática, de verdades y valores universales; una Edad Media antimoderna, localista y sostenible. Sin olvidar, en fin, aquella Edad Media en pánico, aterrada frente a una cifra redonda… Hasta diez modos diferentes de “soñar” la Edad Media distinguía Umberto Eco (1988) en un ensayo que resulta ya programático.

Y es que, en efecto, hay tantas “edades medias” como épocas se animaron a revisar y revisitar un periodo que, por lo demás —y volviendo de nuevo a lo apuntado por el semiólogo italiano—, resulta imposible de “museificar”, por cuanto es allí donde reside el origen de muchas de las cuestiones que, todavía hoy, nos siguen ocupando (passim Eco, 1988: 90-93). No en vano, Miguel Ángel Ladero Quesada (2000: 76-80) notaba que gran parte de los fundamentos socioculturales que todavía hoy operan en el continente europeo —repárese en esta contextualización— germinaron en tiempos medievales y, por la misma razón, Friedrich Heer sentenciaba: “todo el que se enfrente a (…) los temores y esperanzas de nuestra época, se ocupa, lo sepa o no, de procesos cuyos comienzos y fuentes se encuentran directa o indirectamente en la Alta Edad Media” (1963: 17).

Así, pues, la estampa de los siglos medios que se dibuja en el imaginario colectivo es, a su vez, el fruto de los diversos tratamientos que tal época fue recibiendo a lo largo de la historia y de “la cambiante relación con el pasado de los diferentes movimientos que establecieron una recreación imaginaria del Medievo” (Sanmartín Bastida, 2004: 234); una estampa multiforme en la que cabría reconocer, en cualquier caso, las subrayadas ligaduras impuestas, respectivamente, por la mirada del humanismo renacentista, ponderada después por la Ilustración, y la del espíritu decimonónico y romántico (Valdeón Baruque, 2003: 314, entre otros). Es, de hecho, desde estas ligaduras desde las que, en buena medida, se puede comprender cómo y por qué el Medievo se presenta ante nosotros como una suerte de “premisa”, de lugar “otro”, a veces negativo, a veces positivo; ora albergue de barbaridades, ora morada de ídolos y seres maravillosos (Sergi, 2001: 22-23).

Tal polimorfismo podría ponerse en relación, en primera instancia, con la particular enjundia que atañe a la etiqueta “Edad Media” —que, igualmente y como se verá más adelante, se habría de revertir sobre el nombre de la disciplina que tiene tal época por objeto (Sanmartín Bastida, 2004: 231; Gonçalves Soares & Sanmartín Bastida, 2021: 490)—. Nótese, por un lado, la hipertrofiada cobertura de un marbete cuyo origen cabrá remontar a los siglos XIV y XV, según los expertos —quienes, a su vez, mencionan con frecuencia los nombres coterráneos de Flavio Biondo (1392-1463), historiador italiano, y de Giovanni Andrea dei Bussi (1417-1475), sacerdote y bibliotecario (por caso, en Le Goff, 1985 : 7; Valdeón Baruque, 2003: 311)—, y que, sobre todo, refiere un periodo de tiempo algo “excéntrico” —ya no solo por la relación dialéctica que mantienen “lo medieval” y “lo moderno” (Carpegna Falconieri, 2015: 17-18; Crespo-Vila, 2017: 553-554), sino también por su situación en el seno de la Academia (Patterson, 1990)—, situado, como especie de hendidura, entre la Antigüedad y la Modernidad y, aunque con márgenes aún discutidos (véase Sergi, 2001: 27-30; Sanmartín Bastida, 2004), convencionalmente formado por un conjunto de mil años, “tomado en bloque, sin discriminación ni matices” (Jacques Heers, 1995: 18-38).

¿Será, acaso, la misma “Edad Media” aquella que intentan reconstruir los historiadores del siglo VI y aquella que concierne a los siglos XIV y XV? Tomando un criterio cultural y religioso, ¿es oportuno asumir una visión monolítica de esos mil años? (Sergi, 2001: 91). Y preguntémonos también, desde una perspectiva socio-económica y de la mano de Alain Guerreau, si los adjetivos “medieval” y “feudal”, que parecen operar indisolublemente en la imagen común de aquellos siglos, “¿pueden emplearse indistintamente o remiten a realidades distintas?, ¿podríamos aplicar al primero un sentido restringido y al último un sentido amplio, sentidos que, no obstante, no deberían ser confundidos?” (Guerreau, 2003: 297). Sin olvidar, claro, otro criterio fundamental: el geográfico, puesto que tampoco parece apropiado trasladar o aplicar tal noción sobre otros territorios ajenos al europeo; lo que no implica, en cualquier caso, que aquella no hubiese terminado proyectando su milenaria y poliforme envergadura allende el continente. Tal y como advertía Nadia Altschul a propósito del particular latinoamericano: “mesmo sem termos vivido o período histórico chamado de medieval, ele foi apropriado em um discurso que contribuiu para fundar nosso mito de origem (...). Na América Latina, a idade média, como um conceito temporalizado, transformou-se na mãe zelosa ou na madrasta má dos nascentes Estados, muitas vezes, desempenhou ambos os papéis, ora exaltada, ora rejeitada” (Altschul, 2021: 10-11)

Así las cosas, por cuanto la “Edad Media” no remite a un referente único, homogéneo y, mucho menos, estanco en su consideración a lo largo del tiempo —es antes “un conjunto de representaciones y de imágenes en perpetuo movimiento ampliamente difundido por la sociedad de generación en generación” (Amalvi, 2003: 232)—, la cuestión terminológica habría de derivar igualmente —ya lo adelantábamos— hacia el rótulo de los estudios que se ocupan de ella. Ya en la década de los años setenta, Leslie Workman proponía el marbete “medievalismo” para plantear ante la academia la necesidad de asumir la naturaleza compleja del consabido objeto de estudio, de reconocer la Edad Media en su condición de “constructo” o “proceso” y de extender su abordaje, por tanto, más allá del arco cronológico al que habitualmente se la circunscribe (véase Workman, 1979, 1987, 1997). Dicho de otro modo: la propuesta de Workman postulaba que, junto a los eventos propios de la Edad Media, la academia debería considerar también el estudio de toda aquella producción de sentido surgida a propósito de los siglos medios en épocas sucesivas.

Si bien la trayectoria del debate abierto por Workman merecería un trabajo aparte —como el realizado reciente y detalladamente por Ana Rita Gonçalves Soares y Rebeca Sanmartín Bastida (2021: 484-492), que seguimos aquí— y el deslinde terminológico resulta en realidad mucho más arduo, sirva a nuestros intereses intentar una síntesis y distinguir entre los “estudios medievales”, entendidos como el estudio científico de la Edad Media —esa Edad Media convenidamente “unívoca”—, y el “medievalismo”, como la “inspiración en el Medievo de las formas del arte y del pensamiento” (Sanmartín Bastida, 2004: 230) y el estudio, a su vez, de ese conjunto de “edades medias” recreadas, “codificadas” y mediadas por la recepción posterior. Sin dejar de mencionar, en fin, el “nuevo medievalismo”, en tanto que supuesta renovación de la disciplina bajo la impronta y los postulados de la llamada “posmodernidad” —pero quizás todavía más complejo y discutido en su definición, objeto y objetivos— (Aurell, 2006: 809-832).

Es, pues, en la órbita del medievalismo —que en la esfera ibérica parece no haber cultivado tradición de tanto éxito como en el ámbito anglosajón— en la que situamos el presente dosier, con la intención de atender, junto a los autores que aquí nos acompañan, a lo que ha de considerarse un nuevo hito en la longeva singladura de la Edad Media después de la Edad Media; hito cuyos comienzos cabe remontar, no obstante, a la segunda mitad del siglo XX. Tal y como advertía Christian Amalvi —al respecto del caso francés, pero igualmente extrapolable a otros contextos— ya en 1999: “desde hace unos veinte años aproximadamente, nuestra relación con el pasado medieval ha cambiado tan profundamente que se ha llegado a comparar esta vuelta a la Edad Media con el regreso propugnado por la generación de 1830” (2003: 237). Una “otra” Edad Media más que añadir, pues, al profuso listado de edades medias identificado por Umberto Eco y que, desde entonces, se ha venido codificando —de manera sucesiva, creemos— en función de tres parámetros esenciales e íntimamente relacionados entre sí. Sin espacio aquí para profundizar en cuestiones de tamaño calado, sirva una breve presentación de dicha tríada:

(a)    La llamada “cultura de masas”, cuya definición todavía hoy sigue pareciendo compleja; pero que se reconoce originada en las demandas de una clase trabajadora que, durante la primera mitad del siglo XX, con los intensos procesos de industrialización y urbanización experimentados en el occidente europeo y Norteamérica, empezó a exigir un tipo de cultura adecuada a sus gustos e intereses, más cercana al ocio y al entretenimiento. Una cultura ligada, pues, al sistema capitalista, ponderada por el desarrollo de los medios de comunicación masivos y convertida, en fin, en objeto de consumo (Abruzzense, 2004: 189-192; Eco, 2004, entre otros).

(b)    El ya mencionado pensamiento posmoderno y los presupuestos del posmodernismo, entendido el primero como una forma de concebir el mundo signada, grosso modo, por el cuestionamiento de una serie de categorías esenciales —sujeto, lenguaje, realidad, verdad o historia— heredadas del pensamiento iluminista; y el segundo, como la concreción estética del primero y caracterizada, en síntesis, por el debilitamiento de los fundamentos artísticos de la modernidad —como el de la originalidad—, la asunción de un contexto mercantilizado, la hibridación de materiales de procedencia diversa, así como por la reescritura e, incluso, la parodia del pasado artístico e histórico (véanse, de manera especial: Lyotard, 1984; Jameson, 2016; Calinescu, 2003).

(c)    Y, en tercer lugar, los avances de las nuevas tecnologías de la información y la comunicación, así como la progresiva transformación digital, con repercusiones claras ya no solo en el ámbito de la cultura, sino también en el de la sociedad en general.   

Es, así, en la trabazón de estos tres eventos donde se cifran dos de los fenómenos más importantes de la historia cultural reciente, que, a su vez, han tenido efectos evidentes sobre el objeto que aquí nos ocupa; es decir, sobre la forma y los formatos de representación actual del pasado medieval, la imagen de la época y su instrumentalización desde una perspectiva simbólica. Recurrimos de nuevo a Christian Amalvi para introducir el primero de estos fenómenos:

Hace más de ciento cincuenta años, el redescubrimiento de este lejano “planeta” que es la Edad Media, no interesaba más que a la elite cultivada y adinerada de la sociedad francesa. Actualmente, es prácticamente al conjunto de la población a quien se dirige, si no la renovación de los estudios medievales, al menos el gran regreso de la Edad Media bajo la doble forma de turismo cultural y de pseudo-fiesta “medievalizante” recreada, una moda que desde hace quince años se ha extendido como la pólvora (…). (Amalvi, [1999] 2003: 240)

Hablamos, claro, de la democratización de la cultura —la “trivialización” o la “mercantilización” para aquellos “apocalípticos” de los que hablaba Eco (2004: 30)— y la progresiva disolución de la línea que tradicionalmente hubo de separar la alta cultura de la cultura popular; en tanto que efecto inmediato de la industria cultural y la cultura de masas, por el que se subvertiría el flujo de producción y difusión de la cultura, hasta entonces unidireccional, para dar lugar a un panorama mucho más fluido, híbrido y con trasvases también de abajo arriba (Abruzzese, 2004: 190). Fenómeno que, igualmente, se reconoce como uno de los más significativos de la estética posmodernista, fascinada por “este paisaje «degradado», chapucero y Kitsch, de las series televisivas y la cultura de Reader’s Digest, de la publicidad y los moteles, del cine de Hollywood de serie-B y de la llamada «paraliteratura»” (Jameson, 2016: 25). Desde este planteamiento y retomando, una fórmula de John Barth —esgrimida con motivo de la literatura posmoderna (1986: 18)—, cabría apuntar, pues, que la Edad Media que sueña la actualidad puede ser tan de altar como de mercadillo.

De igual forma, en un contexto cultural en el que, consecuentemente con lo anterior, se vinieron a revalorizar lenguajes, formatos y motivos hasta el momento denostados o considerados “menores” —trasladándose estos desde los márgenes al centro de la producción, desde la periferia hasta el seno de la Académica—, se revela el segundo de aquellos fenómenos: una expresión cultural caracterizada por el eclecticismo, la heterogeneidad y la multiplicidad. De ahí que, lejos de restringirse a un ámbito creativo específico, esa “pseudo-fiesta medievalizante” de la que hablaba Amalvi tenga hoy un carácter transversal y omnímodo y que la presencia de motivos relacionados con el pasado medieval —sean estos argumentales, formales, estructurales, simbólicos o estéticos— se pueda señalar por igual en la narrativa actual —también en la dirigida a los más jóvenes—, en las artes escénicas, en la gran pantalla, en las series de televisión —también las de plataformas de vídeo bajo demanda—, en la música, en el cómic y la novela gráfica, en los videojuegos y aplicaciones, en las artes plásticas…, así como en otro tipo de iniciativas que, entre lo lúdico, lo divulgativo y lo comercial, encuentran en la recreación del Medievo un afortunado pretexto.

Es por ello por lo que, con relativo desenfado y cierta laxitud terminológica —somos conscientes—, proponemos el adjetivo “multimedia” para calificar esta “otra” Edad Media actual. Si bien entendemos que tal adjetivo, importado del inglés y ligado al mundo de la información y la comunicación digitales, refiere en su acepción más común la producción de mensajes y/o contenidos integrados por varios códigos de significación —texto, imágenes, sonido, datos—, seguimos un apunte de Ramón Salaverría y apelamos aquí a la etimología latina del término y, con ello, a su sentido nuclear: “aquello que se expresa, transmite o percibe a través de varios medios” o —subrayamos— “intermediarios” (Salaverría, 2001: 384). No en vano, es precisamente esa codificación múltiple de la Edad Media, a través de diversos formatos y de forma simultánea en el tiempo, la que nos interesa desentrañar, junto a los autores, en este dosier: este conjunto actual de realizaciones medievales, ¿devuelve una imagen orgánica de la Edad Media? ¿O, por el contrario, la especificidad de cada lenguaje sesga la estampa del pasado medieval? El novelista que revisita los siglos medios, ¿pondera los mismos motivos que el ilustrador? ¿Y el compositor? ¿Y el programador? ¿Cómo influye el modo de recepción —consumo— de cada medio en la representación de la Edad Media? En definitiva: ¿cuántas edades medias sueña la cultura actual?

Aceptada, en fin, la Edad Media como “edad mediada”, esto es, como el resultado de un proceso de construcción diacrónico y acumulativo, no solo se trata de preguntarnos si estamos asistiendo a una nueva fase de dicho proceso; ya que esto, a la luz de lo expuesto, de la bibliografía consultada y de un simple vistazo a la actualidad cultural, puede parecer evidente. Sino que, ante un contexto de producción cultural caracterizado por la multiplicidad, la diversidad y la “heteroglosia” (Pozuelo Yvancos, 2004: 47), cabe examinar si, en el seno de dicha fase de remedo medieval, están operando de manera simultánea tendencias y sinergias distintas, sean estas complementarias o contradictorias, pero que, desde una perspectiva holística, reconfiguren una imagen nueva del Medievo. Así, siguiendo el consejo de los expertos —que recomiendan un acercamiento interdisciplinar a la expresión de lo medieval (Workman, 1997: 30; Sanmartín Bastida, 2004: 230; Aurell: 2006:811)—, hemos querido reunir en este dosier un conjunto de trabajos que, desde disciplinas distintas y desde perspectivas —teóricas, metodológicas, temáticas, geográficas— diversas, más allá de dar cuenta de la notable presencia de motivos medievales en la cultura actual, revelan la naturaleza “multimedia” de esta renovada celebración del Medievo, así como la presumible impronta contextual de la fiesta y las específicas ligaduras impuestas por cada medio-anfitrión.

Todos los lectores quedan, pues, invitados a esta fiesta: ¿qué Edad Media les apetecería “soñar”?

Los Editores

 

Referencias Bibliográficas

Abruzzese, Alberto (2004). “Cultura de masas”, Cuadernos de Información y Comunicación 9, pp. 189-192.

Altschul, Nadia R.; Bertarelli, Maria Eugênia; Amaral, Clínio (2021). “Apresentação do dossiê: o que é o neomedievalismo?”, Revista Signum 22.1, pp. 6-18.

Amalvi, Christian (2003) “Edad Media”, em Jacques Le Goff & Jean-Claude Schmitt (eds.), Diccionario razonado del Occidente medieval. Madrid: Akal, 2003. 232-242.

Aurell, Jaume (2006). “El nuevo medievalismo y la interpretación de los textos históricos”, Hispania. Revista Española de Historia LXVI (224): pp. 809-832.

Barth, John (1986). “Literatura postmoderna”, Quimera 46-47, pp. 12-21.

Calinescu, Matei (2003). Cinco caras de la modernidad: modernismo, vanguardia, decadencia, "kitsch", posmodernismo. Madrid: Alianza.

Carpegna Falconieri, T. di (2015). El presente medieval. Bárbaros y cruzados en la política actual. Barcelona: Icaria.

Crespo-Vila, Raquel (2017). “La «Nueva Edad Media»: estado de la cuestión y ¿nuevas aplicaciones desde las teorías culturales contemporáneas (y la literatura)?”, e-Humanista 37, pp. 547-565.

Eco, Umberto (1988). “Diez modos de soñar la Edad Media”, em De los espejos y otros ensayos. Barcelona: Lumen (pp. 84-96).

Eco, Umberto (2004). Apocalípticos e integrados. Barcelona: DeBolsillo.

Gonçalvez Soares, Ana Rita & Sanmartín Bastida, Rebeca (2021). “Medievalismo”, em F. García Jurado (dir.), Diccionario Hispánico de la Tradición y Recepción Clásica, Madrid: Guillermo Escolar Editor, (pp. 484-492).

Guerreau, Alain (2003). “Feudalismo”, Jacques Le Goff & Jean-Claude Schmitt (eds.), Diccionario razonado del Occidente medieval. Madrid: Akal (pp. 297-309).

Heer, Friedrich (1963). El mundo medieval: Europa 1100-1350. Madrid: Guadarrama.

Heers, Jacques (1995). La invención de la Edad Media. Barcelona: Crítica.

Jameson, Fredric (2016). Teoría de la posmodernidad. Madrid: Trotta.

Ladero Quesada, Miguel Ángel (2000). “Tinieblas y claridades de la Edad Media”, em Eloy Benito Ruano (coord.), Tópicos y realidades de la Edad Media, I. Madrid: Real Academia de la Historia (pp. 49-90).

Le Goff, Jacques (1985). L’imaginaire médiéval: essais. París: Gallimard.

Lyotard, Jean-François (1984). La condición postmoderna: informe sobre el saber. Madrid: Cátedra.

Patterson, Lee (1990). “On the margin: posmodernism, ironic history and medieval studies”, Speculum 65.1, pp. 87-108.

Pozuelo Yvancos, José M.ª (2004). Ventanas de la ficción. Narrativa hispánica, siglos XX y XXI. Barcelona: Península.

Salaverría, Ramón (2001). “Aproximaciones al concepto de multimedia desde los planos comunicativo e instrumental”, Estudios sobre el mensaje periodístico 7, pp. 383-395.

Sanmartín Bastida, Rebeca (2004). “De Edad Media y medievalismos: propuestas y perspectivas”, Dicenda: Cuadernos de filología hispánica 22, pp. (229-247).

Sergi, Giuseppe (2001). La idea de la Edad Media: entre el sentido común y la práctica historiográfica. Barcelona: Crítica.

Valdeón Baruque, Julio (2003). “La valoración histórica de la Edad Media: entre el mito y la realidad”, em J. Ignacio de la Iglesia Duarte & J. Luis Martín Rodríguez (coords.), Memoria, mito y realidad en la historia medieval: XIII Semana de Estudios Medievales (Nájera, del 29 de julio al 2 de agosto de 2002). Logroño: Instituto de Estudios Riojanos (pp. 311-329).