Chamada Publicação: Dossiê: Neomedievalismo em Países Sem Medievo: Idade Média na América

Signum, v. 22, n. 1.

Dossiê: Neomedievalismo em Países Sem Medievo: Idade Média na América

Profa. Dra. Nadia R. Altschul (Universidade de Glasgow, link para CV: https://www.gla.ac.uk/schools/mlc/staff/nadiaaltschul/);
Profa. Dra. Maria Eugênia Bertarelli (Unigranrio, link para CV: http://lattes.cnpq.br/0262395569611308);
Prof. Dr. Clínio de Oliveira Amaral (UFRRJ, link para CV http://lattes.cnpq.br/7352024230076191)

Prazo para submissão: 31 de maio de 2021

 

Propomos um dossiê sobre Neomedievalismo, um campo de estudos recente dentro da historiografia e que vem se desenvolvendo nos últimos anos não apenas em âmbito internacional, mas também com grande força na América Latina. Em sua forma mais reconhecida, o “medievalismo” é apresentado como a reapropriação de elementos considerados medievais em qualquer formato e época após o fim da Idade Média histórica, isto é, o período entre a “queda” de Roma e o Renascimento ou a “queda” de Bizâncio. Nesta primeira posição teórica da disciplina, os estudos do medievalismo pressupõem, por um lado, o fim da Idade Média e, por outro, uma reutilização consciente de que a Idade Média foi um período historicamente definido e finalizado, para que deste modo, fosse possível começar a pensar no medievalismo propriamente dito.

Essa separação a respeito de um tempo que se fechou e sua percepção como tendo ocorrido no passado não é especialmente problemática para os centros hegemônicos de conhecimento. Para os centros hegemônicos, sua “própria Idade Média” é uma época histórica que acabou e que está, em seu próprio imaginário, cuidadosamente colocada além da realidade cotidiana. Mas essa mesma posição teórica cria dificuldades nas áreas pós-coloniais ou no chamado mundo subdesenvolvido. As áreas pós-coloniais são consideradas como carentes de um “verdadeiro passado medieval” e, ao mesmo tempo, são, em sua maioria, vistas como sociedades atrasadas, sociedades anacrônicas nas quais continuam os modos de vida medievais que estão fora de sincronia com o presente.

Por intermédio dessa percepção do medievalismo, difundida nos meios intelectuais anglófonos desde a década de 70 com os trabalhos de Leslie Workman, propomos pensar o campo dentro da concepção do Neomedievalismo, conceito que nos parece mais adaptado à realidade latino-americana. Esse termo tem como vantagem evitar confusões, particularmente na língua portuguesa, ao se identificar o medievalismo aos estudos do período cronologicamente definido como Idade Média. Uma forma de esclarecer os limites e possibilidades das terminologias medievalismo e neomedievalismo é uma comparação com os termos muito mais familiares de classicismo e neoclassicismo. Como é bem conhecido na história literária e da arte, o classicismo foi uma tentativa estudada durante o chamado Renascimento de recuperar traços culturais que seus praticantes associaram ao passado greco-romano e consideraram esquecidos após a queda de Roma: foi um renascimento, um ressurgimento da antiguidade clássica. Esse significado é um bom paralelo com o chamado “Revival Medieval”, como o medievalismo foi conhecido pela primeira vez no mundo anglófono: um movimento de retorno aos valores, às estéticas e aos modos de vida do passado, associado à histórica Idade Média e que foram considerados perdidos na era industrial. Devemos já notar que em contraste com o revival ou “renascimento medieval” das Ilhas Britânicas, os primórdios do “medievalismo” na América Latina não apresentam um renascimento ou um desejo nostálgico de reviver o passado, mas uma rejeição dos elementos que foram associados ao medieval. Na Ibero-América, então, as primeiras mobilizações foram, desde os primórdios, formas do “neomedievalismo” em seu sentido de apropriação a-histórica: não ressurgimento de tempos acabados, mas mobilizações politicamente motivadas e com pouco ou nenhum interesse na autenticidade de um passado histórico.

O campo do Neomedievalismo, objeto principal desta proposta de dossiê sobre neomedievalismo iberoamericano, propõe estudar o medievo como ideia e as apropriações políticas, sociais e culturais desse medievo em períodos considerados posteriores à Idade Média.

 

Título: “Neomedievalismo en Países Sin Medioevo: Edad Media en América”

Proponemos un dossier sobre el neomedievalismo, un campo de estudios reciente dentro de la historiografía, que se viene desarrollando en los últimos años no solo a nivel internacional sino que también viene ganando espacio en América Latina. En su forma más reconocida, el "medievalismo" se presenta como la reapropiación de elementos considerados medievales en cualquier formato y tiempo posterior al final de la Edad Media histórica, es decir, el período entre la "caída" de Roma y el Renacimiento o la toma de Bizancio. En esta primera posición teórica de la disciplina, los estudios del medievalismo presuponen, por un lado, el final de la Edad Media y, por otro, una reutilización consciente de que la Edad Media fue un período históricamente definido y finalizado, de modo que, de esta forma, fuera posible empezar a pensar en el medievalismo en sí.

Esta separación respecto a un tiempo que ha terminado y su percepción como ocurrida en el pasado no es particularmente problemática para los centros de conocimiento hegemónicos. Para los centros hegemónicos, su “propia Edad Media” es una época histórica que ha terminado y que, en su contemplación de sí mismos, se sitúa cuidadosamente más allá de la realidad cotidiana. Pero esta misma posición teórica crea dificultades en las áreas poscoloniales o en el llamado mundo subdesarrollado. Se considera que a las áreas poscoloniales les falta un “verdadero pasado medieval” y, al mismo tiempo, se las ve en su mayoría como sociedades atrasadas, sociedades anacrónicas en las que continúan formas de vida medievales que no están sincronizadas con el presente.

A través de esta percepción del medievalismo, difundida en los círculos intelectuales anglófonos desde la década de 1970 con las obras de Leslie Workman, nos proponemos repensar el campo dentro de la concepción del neomedievalismo, concepto que nos parece más adaptado a la realidad latinoamericana. Este término tiene la ventaja de evitar confusiones, especialmente en lengua portuguesa, al identificar el medievalismo con estudios del período cronológicamente definido como Edad Media.

Una forma de aclarar los límites y posibilidades del medievalismo y la terminología neomedieval es una comparación con los términos mucho más familiares de clasicismo y neoclasicismo. Como es bien sabido en la historia de la literatura y del arte, el clasicismo fue un intento estudiado durante el llamado Renacimiento para recuperar rasgos culturales que sus practicantes asociaban con el pasado grecorromano y consideraban olvidados tras la caída de Roma: fue un renacimiento, un resurgimiento de la antigüedad clásica. Este significado es un buen paralelo con el llamado “revival medieval”, como el medievalismo se conoció por primera vez en el mundo de habla inglesa: un movimiento para volver a los valores, la estética y las formas de vida del pasado, asociados con la Edad Media histórica y que fueron considerados perdidos en la era industrial. Ya debemos señalar que a diferencia del revival o “renacimiento medieval” de las Islas Británicas, los inicios del “medievalismo” en América Latina no presentan un renacimiento o un deseo nostálgico de revivir el pasado, sino un rechazo a los elementos que se asociaron con lo medieval. En Iberoamérica, entonces, las primeras movilizaciones fueron, desde el principio, formas de “neomedievalismo” en su sentido de apropiación ahistórica: no un resurgimiento de tiempos terminados, sino movilizaciones políticamente motivadas con poco o ningún interés en la autenticidad de un pasado histórico.

El campo del neomedievalismo, objeto principal de esta propuesta de dossier sobre neomedievalismo iberoamericano, propone estudiar lo medieval como idea y las apropiaciones políticas, sociales y culturales de este medievo en períodos considerados posteriores a la Edad Media.

 

Title: “Neomedievalism in Lands Without a Middle Ages: The Middle Ages in América”

We propose a dossier dedicated to Neomedievalism, a recent historiographical field that has been growing significantly over the past years not only internationally but also in Latin America. In its best known form “medievalism” refers to the reappropriation of elements considered medieval in any form or time after the end of the historical Middle Ages, i.e. the period between the “fall” of Rome and the Renaissance or the “fall” of the Byzantine Empire. In this early theoretical approach, studies about Medievalism presuppose, on the one hand, the end of the Middle Ages and, on the other, the conscious reutilization of the Middle Ages as a limited and finalized historical period, a period that had to have ended before Medievalism was able to begin.

This separation between a finalized period and its perception as something that took place in the past is not particularly problematic for hegemonic centers of knowledge where their “Middle Ages” are a historical time that is over and, in their own self-conception, carefully placed beyond everyday reality. However, this theoretical position brings difficulties to post-colonial areas or the so-called underdeveloped world. These areas are thought to be lacking a “true medieval past” and, at the same time, they are often seen as underdeveloped anachronistic societies. In other words, they are viewed as having kept their medieval way of life without synchronicity with present times.

Thinking through this concept of medievalism – which has been widespread among Anglophone scholars since Leslie Workman’s work in the 1970s – we propose instead to reflect about this field through the concept of Neomedievalism; one which, in our view, is better suited to the Latin-American context.  One of the advantages of using the term Neomedievalism is that it avoids misunderstandings, especially in the Portuguese language where the term “medievalism” is used to identify studies about the chronological Middle Ages. One way to clarify the limits and possibilities of the terminology of “medievalism” and “neomedievalism” is to compare these to more familiar terms such as classicism and neoclassicism. Well-known in literary and art history, classicism was an attempt during the period known as the Renaissance, to study and retrieve cultural aspects associated with a Greco-Roman past that was believed forgotten after the fall of Rome. It was thus a re-naissance, a resurgence of Classical Antiquity. This meaning makes for a good comparison to the so-called “medieval revival” as medievalism was first known in the Anglophone world: a movement to bring back the values, esthetics, and ways of living associated with the Middle Ages, believed to have been lost in the industrial era.  We must note that in contrast with the “medieval revival” of the British Isles, the first “medievalisms” in Latin America did not imply a renaissance or a nostalgic wish to recover the past, but, in fact, a rejection of elements that had been associated to the Middle Ages. In Iberian-America, the first mobilizations were from the start forms of “neomedievalism” in the sense of a-historical appropriation. These were not resurgences of finished times, but political mobilizations with little to no interest in authenticity or the historical past.

Therefore, the field of Neomedievalism in Iberian-America – this dossier’s main goal – views the Middle Ages as an idea and, at the same time, studies its political, social, and cultural appropriations during periods considered subsequent to the Middle Ages.